Relação entre medicina e literatura manifesta na antiguidade e em outras temporalidades.
A Revista GLÁUKS ONLINE (ISSN 2318-7131), publicação quadrimestral do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Viçosa (UFV), está recebendo artigos e ensaios para o volume 26, n.3 –ago./ dez. 2026, destinado á Literatura. O eixo temático adotado neste volume especial é medicina e literatura.
“[...] um médico é homem que vale por muitos outros, / quando se trata de retirar setas e
aplicar fármacos apaziguadores” (Homero, Ilíada XI, v. 534-535; trad. F. Lourenço).
Com tais palavras, Idomeneu exorta a Nestor, para que este salve do campo de batalha o
médico Macáon, recém-ferido por uma flecha de Páris. Em outra cena da Ilíada, o poeta
narra alguns detalhes da prática médica de Macáon, na ocasião em que este, após ser
procurado em meio a vários guerreiros, é levado a ver e tentar curar as feridas sofridas
por Menelau (IV, v. 193-217). A presença desse personagem médico-guerreiro na épica
homérica atesta a longa duração de uma tradição que põe em relação a medicina e a
literatura, cujas ressonâncias se podem verificar até os nossos dias. Outros momentos
notáveis dessa antiga relação encontram-se, por exemplo, na famosa comparação que
Sócrates faz entre a forma do discurso de Lísias e a anatomia de um corpo, ao dizer que
as palavras desse orador “não tinham pé nem cabeça” (cf. Platão, Fédro 264c). Ou
quando, em outro trecho dessa mesma obra, a retórica é comparada à medicina, na
medida em que uma influi sobre o corpo; a outra, sobre a alma (cf. ibid, 270c ss.). E não
nos esqueçamos das recomendações para expurgar da poesia de Homero os trechos
considerados prejudiciais à formação dos cidadãos da cidade ideal da República,
corroborando a noção de que más ideias, como doenças, podem espalhar-se (cf. III,
386a-392c).
Quanto aos textos médicos, também desde a Antiguidade, é possível encontrar neles
convergências com a arte de escrever. Numa passagem do corpus hipocrático, seu autor
diz: “julgo que grande parte da arte [sc. médica] consiste em poder examinar
corretamente também a respeito daquilo que está escrito” (Hipócrates, Epidemias III, 2,
16). Séculos mais tarde, Galeno dedica parte de seus textos não só a comentar a obra de
seu mestre Hipócrates, mas também a explicar palavras difíceis de comediógrafos e a
redigir um léxico com tais palavras. Por fim, encontramos os mais diversos
empréstimos recíprocos na forma de descrever e escrever o corpo humano em seus mais
diferentes estados, uma vez que, como diz o autor hipocrático: “o médico vê e toca
coisas terríveis” (Hipócrates, Sobre os flatos 1,2), ao passo que a literatura, por vezes,
busca construir, pelas palavras, os efeitos de perturbadoras experiências corporais.
Nesse sentido, um exemplo emblemático é o Fragmento 31, da poeta Safo de Lesbos,
cujos versos traduzem de forma contundente os efeitos corporais que podem ser
provocados pelo desejo: “[...] pois quando te vejo por um instante, então fa- / lar não
posso mais, / mas se quebra minha língua, e ligeiro / fogo de pronto corre sob minha
pele, / e nada veem meus olhos, e / zumbem ouvidos, / e água escorre de mim, e um
tremor / de todo me toma, e mais verde que a relva / estou, e bem perto de estar morta /
pareço eu mesma. (v. 7-16; trad. G. Ragusa)
Diante do exposto, o próximo número da Gláuks faz uma chamada pública para receber
artigos que, de algum modo, discorram sobre a relação entre medicina e literatura
manifesta na antiguidade e em outras temporalidades. Serão bem-vindas propostas que
dialoguem com os seguintes eixos:
1) obras que representam personagens médicas;
2) textos literários cuja autoria ou tradução provém de um médico ou uma médica;
3) literatura como agente patológico ou terapêutico: noções de contaminações,
distúrbios, excitações, cura etc. causados pelo contato com as palavras;
4) empréstimos lexicais e/ou conceituais entre medicina e literatura;
5) paralelos entre a interpretação de textos literários e a interpretação de corpos;
6) casos e/ou escritos médicos como tema ou gênero literário.
Organizadores:
Letticia Leite (UNESP) e Luciano César Garcia Pinto (UNIFESP)
As propostas devem ser submetidas diretamente no site da revista Glauks:
https://www.revistaglauks.ufv.br/Glauks
Por favor, antes de submeter, cheque as normas
em: https://www.revistaglauks.ufv.br/Glauks/information/authors
Prazo de submissão: 07 de maio de 2026 a 31 de julho de 2026
Previsão de Publicação: Dezembro de 2026
Contato: glauks@ufv.br






